TRISTE CORPO PRETO

Rio de Janeiro, 07 de Abril de 2019.

Mais um homem preto ao chão. Não, dois homens pretos ao chão.

Alguém aí lembra seus nomes?

Evaldo Rosa e Luciano Macedo.

Alguém tem interesse nesses nomes?

Rio de Janeiro, dia 7 de Abril de 2019, quem devia nos proteger está nos matando.

Quem devia nos proteger diz que não tem culpa e mais uma tragédia acontece. Porque bandido bom é bandido morto… mas só preto é bandido!

Preto não tem direito à vida!

2019, um homem preto é fuzilado.

Não são 2 ou 9 tiros, não, foram 80! Ou melhor, 220!

Esse é o número que nos grita: – Sua vida NÃO vale a pena.

Sim, preto é confundido com bandido, e o resultado?

– Foi tudo uma “bobeada”, um “incidente”, porque “o exército não mata ninguém”, “exército É DO POVO” e o povo não é culpado!

Ah sim, preto, pobre, favelado é bandido. Preto não é o povo!

Mas isso vai mudar, calma que existe um pacote anticrime… vamos reverter essa situação!

Oh não, tristes os pretos desse país. Serão mortos, mas a polícia é isenta, afinal, foi em legítima defesa. Foi por medo.

Tristes os corpos pretos que são bandidos, tristes, tristes… triste de Marielle, que ainda não teve o caso solucionado. Triste de Evaldo, que morreu por ser preto. Foi confundido com bandido. Triste daquele catador, que morreu oferecendo ajuda. Triste porque ele era preto.

Mas esqueço de comentar algo, perdoe – me!

– “Racismo é raridade no Brasil”, nosso capitão quem disse, então, é verdade!

Disse isso para aquele jovem preto morto pelo segurança do Extra!

Disse isso para o estudante morto em ação policial. Opa… ele também era preto! Que infelicidade.

Disse isso para todas as crianças pretas que não possuem qualquer oportunidade de acesso à educação. Disse isso para aquele jogador de futebol, anos antes chamado de macaco por uma torcedora branca do Grêmio.

Disse isso para todo preto que não se sente minimamente seguro. Afinal, é preto, então, é bandido!

Ah, mas foi o capitão quem disse, então deve ser verdade!

O atlas da violência, lançado agora em 2018, coisa recente, diz: – “Uma das principais facetas da desigualdade racial no Brasil é a forte concentração de homicídios na população negra” e – “Em 2016, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não negros”, está errado, porque racismo é raridade quando – “os negros são as principais vítimas da ação letal das polícias e o perfil predominante da população prisional do Brasil.”

Não, o atlas da violência está errado, equivocado, racismo é raridade e nossa polícia não é racista, não, 220 tiros é incidente e nossas forças armadas estão aqui para nos proteger!

Estão? Sim, porque o exército É DO POVO!

Tristes corpos pretos, que não são o povo.

22 de Agosto de 2019, ainda não possuímos soluções, ainda não temos segurança, ainda vivemos com medo e ainda somos confundidos com bandidos. Nossa aparência é de assaltantes, nossa cor determina se cometemos um crime ou não.

Somos pretos e favelados, e 200 tiros nos reafirmam isso com uma brutalidade sem tamanho.

Tristes desses jovens pretos, mortos por quem devia os proteger. Tristes das mães e pais pretos, irmãs, filhos e cônjuges pretos. Tristes desses que estão a mercê desse estado que nos mata.

Tristes desses corpos que recebem em troca o silêncio, o deboche e a crueldade da marginalização. Triste de nós pretos que somos alvos dia após dia, não porque somos errados, mas porque temos a cor errada!

Atlas da Violência 2018

Revisão e agradecimentos à Marina Borja

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